Eu, sentada na plateia, sem um peso no olhar e cansaço na voz. Zanzando. Já faz alguns anos. Nem todo mundo sonha. Ele disse. Que estranho falar com tanta vontade que nem todo mundo sonha… Como ele sabe que nem todo mundo sonha? Apenas os escritores podem sonhar. Sonhos… Que sonhos? Eu nem lembro do último sonho que tive. Sonhos são conquistas. Mas o que eu quero conquistar além do que ele, o poderoso lá em cima do palco de lapela e socialmente quisto, já tem? Sonhos são sentimentos. Isso eu tenho demais, provavelmente ele também deve ter. Mas tem alguma coisa que me arranca o amargor. Como ele pode dizer que nem todo mundo sonha?

Aquilo me levou à acidez o resto dos dias e anos, sim, anos. Nem todo mundo sonha. Que piada. O que são sonhos? Realidades de outros espaços-tempos que vislumbramos em memórias quando dormimos? São desejos reprimidos? Desejos infantis? Ah, desejos infantis, sonhos infantis… Ah, na infância desejamos tantas coisas, coisas importantes e inegociáveis. Planejamos um futuro. Somos tão exigentes nessas preparações. Quem seremos. O que faremos. Lembro que meus sonhos eram ser uma estilista de sucesso, uma cantora, atuar em uma série, ser uma convidada especial em um programa de TV, astronauta… Cresci mais um pouco, conheci o medo, a insegurança, sonhei com o fim do mundo. Meu sonho se tornou um pouco mais utópico. Quis ter uma casa grande, grande o suficiente para que todas as pessoas que eu amasse morassem perto (acho que até hoje é meu sonho favorito). Mas, no hoje eu apenas desejo ter mais tempo. Tempo para sonhar. Tempo para viver. Tempo para amar. Deixa de ser um sonho se torna um desejo, uma necessidade. Mas, e os sonhos, onde ficam os sonhos? A vontade que dá é sair perguntando para todo mundo na rua. Ei, qual o seu sonho? Você! Me fala o seu sonho. Mas, sonhos são as necessidades… Sonho, sonho mesmo, é o íntimo. O irreal que está no nosso imaginário, incosciente, o nosso outro eu de lá nos informando o que está acontecendo. Ei, outro eu, você acha que todo mundo sonha? Quem sonha, afinal?

Ah… é verdade, outro eu, os sonhos ficam para quem tem tempo para dormir e sonhar com eles. Nós aqui, os daqui de baixo, os da esquina, os dos lados, ultimamente nós precisamos de estímulos para pensar e até para dormir… o que somos nós para eles, afinal? Entendi o meu amargor. Posso concluir o texto, finalmente.

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