comecei a chorar por tudo ou, na verdade, eu acho que sempre chorei por tudo. achei engraçado e um pouco triste. quando me lembro de quem eu fui criança, pré-adolescente e adolescente, eu tinha vergonha de chorar e reprimia toda a frustração e até a alegria que me emocionava. eu tinha vergonha de muitas coisas, na verdade, mas principalmente de chorar. acho que estou naquela fase… aquela fase, em que me estranho em mudanças pequenas, as pequenas que me dão mais medo. me olho no espelho e me estranho, de repente. sou eu? chorei um tempo desses. sou eu? eu já fui eu?
escrevia um tempo atrás sempre sobre crianças, infâncias e quem somos. acho que eu quis buscar aquela essência infantil, de quem eu era antes de tudo que vem depois dos machucados. mas, quando leio, atualmente, percebo que era um prelúdio para isso. a teoria analítica sentimental antes da prática melancólica. me descobri sensível ao mundo, finalmente posso assumir sem vergonhas ou pré-conceitos. uma sensibilidade aflorada entre os excessos de informações, sensações e sentimentos mal explorados. um mundo atual onde temos que responder no mesmo momento o que estamos sentindo, me recolho em silêncio para refletir e deixar que eu sinta tudo o que preciso sentir. eu não preciso ter pressa para me explicar ou para sentir. para quem eu devo me explicar? para quem eu devo sentir além de mim? estamos performando tanto que gastamos energias para quem, exatamente?
e é nas lágrimas que tenho me descoberto. não necessariamente as lágrimas de tristeza, nas lágrimas de raiva, de frustração e de amor também, nelas principalmente. é como se eu me visse escorrendo entre elas, vagarosamente escorregando como eu, quando criança, escorregava no papelão nas ladeiras de petropólis. penso nas lágrimas em como penso em mim fluindo nos rios e afluentes do Amazonas, como filha das águas em que minha mãe me abençoa me guiando para a cura ancestral dela. eu tenho escrito e pesquisado sobre isso. a beleza das águas que nos cerca e nos cuida.
termino por aqui. estou só me desaguando.
Deixe um comentário